Alta nos preços dos fertilizantes acende alerta no campo, e por consequência no prato do brasileiro

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Mais do que nunca, políticas públicas eficazes e crédito acessível são necessários para garantir que o Brasil continue produzindo — e alimentando — de forma sustentável

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O campo brasileiro, que há décadas sustenta a balança comercial do país, está enfrentando um novo desafio que pode se refletir diretamente na mesa do consumidor: o alto custo dos fertilizantes. Em Mato Grosso, maior produtor de grãos do Brasil, os produtores já sinalizam cortes na adubação das lavouras, o que pode comprometer a produtividade e alimentar uma inflação de alimentos que não dá trégua.

A pressão vem de todos os lados: volatilidade cambial, juros altos, desaceleração econômica global e gargalos logísticos internacionais. A combinação desses fatores levou a um aumento expressivo nos preços dos insumos agrícolas. Um exemplo claro é o fertilizante MAP, que saltou 20% em um ano, chegando a R$ 4.750 por tonelada em março, segundo levantamento do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (IMEA).

Os números mostram um cenário preocupante. Apenas 38,4% dos produtores haviam adquirido fertilizantes até fevereiro para a safra 2025/26 — o menor índice em anos. A decisão de postergar ou até mesmo cortar investimentos reflete uma realidade econômica hostil: com o dólar girando em torno de R$ 5,88 e a Selic mantida em 14,25%, a relação de troca tornou-se desfavorável para 56% dos agricultores. Eles agora precisam de mais sacas de soja para adquirir a mesma quantidade de adubo.

 Lucas Costa Beber – presidente da Aprosoja-MT

“O produtor está sendo forçado a fazer escolhas difíceis. O fertilizante, que é vital para manter o solo produtivo, virou um item de luxo”, lamenta o presidente da Aprosoja-MT, Lucas Costa Beber. Ele alerta que a redução no uso de adubos já é um fato: 10,6% dos produtores disseram que vão aplicar menos MAP, enquanto 47,3% afirmaram que simplesmente não usarão o insumo na próxima safra.

Esse cenário pode ter um efeito dominó: menor adubação, menor produtividade, menor oferta de alimentos e, inevitavelmente, preços mais altos para o consumidor. Com o IPCA projetado em 5,65% para 2025, a cadeia da inflação alimentar pode ganhar novo impulso, afetando especialmente as famílias de baixa renda.

Além disso, 43,5% dos produtores ainda não decidiram como irão financiar as compras de fertilizantes. Com crédito rural cada vez mais escasso e caro, a insegurança reina no setor. As compras, tradicionalmente feitas com antecedência, estão sendo adiadas — um risco logístico e estratégico, considerando que o segundo semestre é o mais crítico para o abastecimento de insumos no país.

A dependência externa também pesa. Boa parte dos fertilizantes utilizados no Brasil vêm de países como Rússia, Egito e China — regiões que enfrentam instabilidades ou restrições de exportação. A menor oferta global se traduz em preços maiores por aqui, acentuando a vulnerabilidade do agronegócio brasileiro.

A crise dos fertilizantes é mais do que um problema do campo. É um alerta para os efeitos em cadeia que começam na terra e terminam na mesa. Mais do que nunca, políticas públicas eficazes e crédito acessível são necessários para garantir que o Brasil continue produzindo — e alimentando — de forma sustentável.

“Cabe ao Governo Federal fazer sua parte, ajustando os próprios custos e promovendo equilíbrio fiscal, para que o peso da instabilidade econômica não continue recaindo sobre quem produz e sobre quem consome”, conclui Costa Beber.

Por Jota Passarinho com informações da Aprosoja-MT

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