País africano quer atrair investimentos do Brasil para transformar sua agricultura e garantir segurança alimentar à população crescente
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Angola, na África, começa a despontar como uma nova fronteira para o agronegócio brasileiro. Comparada por alguns especialistas ao Mato Grosso de 40 anos atrás — rica em terras férteis, mas ainda com desafios estruturais —, a nação lusófona aposta na parceria com o Brasil para dar um salto em sua produção de alimentos.
Atualmente, o país colhe cerca de 3 milhões de toneladas de milho por safra, principal grão cultivado em seu território. Os números ainda estão distantes dos obtidos no Brasil, mas o potencial é evidente — e a necessidade também. Com uma população de aproximadamente 36 milhões de habitantes, que cresce mais de 1 milhão por ano, Angola corre contra o tempo para garantir segurança alimentar.
Nesta semana, uma comitiva de empresários rurais brasileiros, liderada pelo ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, visita Angola para explorar oportunidades de negócios no campo. O objetivo é conhecer projetos agropecuários existentes, avaliar áreas com potencial para concessão e identificar modelos de parceria.
Apesar da nova onda de interesse, brasileiros já estão no país há mais de uma década. Um exemplo é o produtor Altair Oliveira, natural de Goiás, que fundou a Fazenda Pipe em 2010, com operações nas províncias de Malanje e Cuanza Norte. A terra vermelha da região ainda não precisou de correção com calcário, um atrativo adicional para quem deseja produzir.
Na safra 2025/26, a propriedade cultiva 4.700 hectares de milho, 2.200 de soja e 500 de feijão, com 1.250 hectares irrigados — área que deve mais que dobrar no próximo ano. “O maior desafio foi começar. Quando chegamos, não havia infraestrutura. Era preciso vir de helicóptero, pois sequer existia estrada”, relembra Oliveira.

Produtor rural em Angola, Altair Oliveira, natural de Goiás
Recentemente, a chegada da energia elétrica — instalada de forma independente — permitiu o uso de pivôs de irrigação. O próximo passo aguardado é a liberação do cultivo de sementes transgênicas, ainda proibidas no país. “As variedades convencionais dificultam o manejo e limitam a produtividade, elevando os custos”, explica o produtor, que já investiu entre 40 e 50 milhões de dólares no empreendimento.
Além da Pipe, outra referência brasileira no campo angolano é a Biocom, empresa que lidera o cultivo de cana-de-açúcar na província de Cuanza Norte. Desde 2014, a usina — a única em operação no país — já alcançou uma produção de 130 mil toneladas de açúcar por safra.
A Biocom recebeu uma concessão de 59 mil hectares do governo local, sendo 46 mil destinados ao plantio. Hoje, 33 mil hectares estão em uso. Para ampliar essa área, a empresa busca parcerias com produtores brasileiros, oferecendo um modelo de negócios que inclui canaviais já estabelecidos, áreas para renovação e espaço para expansão.
Com recursos naturais abundantes e uma demanda crescente por alimentos, Angola acena para o Brasil como parceiro estratégico na transformação de sua agricultura. A aposta é ousada, mas tem tudo para render frutos — para ambos os lados.
Por Jota Passarinho





