Do curral ao prato, o queijo agora pode ser símbolo de um novo modelo de assistência alimentar: mais saudável, mais digno — e mais mato-grossense
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Em uma decisão que mistura política pública, identidade cultural e fortalecimento da economia local, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) aprovou nesta quarta-feira (1604), em segundo turno, o Projeto de Lei que torna o queijo um item obrigatório nas cestas básicas do estado. A proposta é de autoria do deputado estadual Gilberto Cattani (PL) e agora segue para a sanção do governador Mauro Mendes (União).
Mais do que uma simples adição à lista de alimentos essenciais, o projeto abre espaço para a valorização de um dos produtos mais tradicionais e representativos da agricultura familiar mato-grossense. De acordo com o texto aprovado, cada cesta básica deverá conter ao menos uma peça de queijo feita com 100% de leite natural, proibindo o uso de produtos análogos ou industrializados de baixa qualidade.
“A intenção é dupla: garantir uma alimentação mais rica e, ao mesmo tempo, fortalecer os pequenos e médios produtores de leite do estado”, defendeu Cattani durante a sessão. O parlamentar destacou a importância do leite e seus derivados como fontes acessíveis de proteína e cálcio, especialmente em um cenário de insegurança alimentar que ainda atinge milhares de famílias no interior de Mato Grosso.
O projeto enfrentou resistência inicial: recebeu parecer contrário da Comissão de Constituição e Justiça, sob a alegação de possível interferência em diretrizes federais sobre composição de cestas básicas. No entanto, no plenário, a proposta conquistou apoio unânime dos deputados — um raro momento de convergência política em tempos polarizados.
Além do aspecto nutricional, a medida tem potencial econômico. Mato Grosso possui milhares de famílias que dependem diretamente da produção leiteira. Em regiões como Araputanga, Jaciara e Tangará da Serra, a produção artesanal de queijo movimenta a economia local e carrega uma forte identidade cultural. Com a inclusão na cesta básica, esses produtores podem vislumbrar um novo mercado, estável e previsível.
Apesar da aprovação legislativa, o projeto ainda depende da sanção do Executivo. Caso vire lei, o Estado deverá regulamentar os critérios de fornecimento e fiscalização para garantir que os queijos distribuídos respeitem o padrão exigido — feitos a partir de leite natural, sem substituições ou misturas artificiais.
A proposta também acende uma nova discussão sobre o que, de fato, deve compor uma cesta básica no século XXI. Em vez de se restringir a alimentos ultraprocessados e de baixo custo, o projeto sinaliza uma tendência de incluir itens regionais e nutritivos, alinhando políticas sociais à valorização do que é produzido localmente.
Do pasto ao prato, o queijo agora pode ser símbolo de um novo modelo de assistência alimentar: mais saudável, mais digno — e mais mato-grossense.
Por Jota Passarinho





