Operação bloqueou de cerca de R$ 20 milhões em bens e valores dos investigados, a apreensão de passaportes e a proibição de saída do país
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Cuiabá (MT), 13 de maio de 2025 – A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira mais uma fase da Operação Sisamnes, que investiga um esquema de compra e venda de decisões judiciais envolvendo inclusive gabinetes do Superior Tribunal de Justiça (STJ). O caso, de proporções alarmantes, veio à tona após o assassinato brutal do advogado Roberto Zampieri, executado a tiros em dezembro de 2023, em Cuiabá.
Nesta etapa, foram cumpridos seis mandados de busca e apreensão nas cidades mato-grossenses de Primavera do Leste e Cuiabá, além de outras diligências em São Paulo e no Distrito Federal. Os alvos da operação são suspeitos de crimes como corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, operação ilegal no mercado de câmbio e organização criminosa.
Entre os investigados está Ussiel Tavares, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso (OAB-MT). A defesa do advogado afirmou, em nota, que não teve acesso à decisão judicial que embasou as buscas e que Tavares está à disposição das autoridades para colaborar com as investigações.
A OAB-MT, por sua vez, acompanhou o cumprimento das diligências para garantir as prerrogativas da advocacia e informou que o caso será encaminhado ao Tribunal de Ética e Disciplina (TED), que avaliará as sanções cabíveis.
A operação determinou ainda o bloqueio de cerca de R$ 20 milhões em bens e valores dos investigados, a apreensão de passaportes e a proibição de saída do país.
Um crime que revelou um esquema nacional
O ponto de partida das investigações foi o assassinato de Roberto Zampieri, alvejado com dez tiros dentro de seu carro, estacionado em frente ao escritório onde trabalhava, em Cuiabá. O autor dos disparos, segundo a Polícia Civil, estava à espreita e fugiu logo após o crime. Zampieri utilizava carro blindado há mais de cinco anos, o que aponta para o conhecimento prévio do atirador sobre as vulnerabilidades do veículo no momento do ataque.
As mensagens recuperadas do celular da vítima revelaram um delicado emaranhado de negociações judiciais suspeitas, incluindo a atuação de desembargadores, advogados e servidores públicos. Segundo as investigações, Zampieri teria sido executado por ordem de Aníbal, um empresário que teria perdido duas fazendas avaliadas em mais de R$ 100 milhões em uma disputa judicial. O mandante, ainda conforme a PF, suspeitava de uma possível aproximação entre Zampieri e o desembargador que conduzia o caso.
Em novembro de 2024, três servidores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) foram afastados por suspeita de envolvimento no esquema. Em agosto do mesmo ano, dois desembargadores — Sebastião de Moraes Filho e João Ferreira Filho — já tinha sido afastados após a análise do conteúdo do celular de Zampieri. Ambos estão sendo monitorados com tornozeleiras eletrônicas e tiveram os passaportes apreendidos, além do bloqueio de seus bens.
Esquema avança sobre o STJ
A atuação da organização criminosa não se limitava ao Judiciário estadual. A PF identificou indícios de tráfico de influência e venda de decisões nos gabinetes do STJ, o que elevou a gravidade do caso. A investigação está sendo conduzida sob sigilo, mas fontes indicam que há suspeitas de que decisões de alto impacto econômico foram manipuladas mediante pagamento.
A Operação Sisamnes — batizada em alusão a um juiz da Antiguidade que foi punido severamente por corrupção — expõe uma trama que ameaça as estruturas do sistema de Justiça brasileiro e reacende o debate sobre a necessidade de maior transparência, fiscalização e responsabilização no Poder Judiciário.
Da redação





