Centenas de civis palestinos continuam morrendo diariamente em ataques israelenses
Após dois anos de conflito que destruíram a Faixa de Gaza, Israel e o Hamas assinaram um acordo de cessar-fogo no dia 10 de outubro. Cinco meses depois do início da trégua, o território palestino ainda é palco de uma das maiores tragédias humanitárias do mundo.
Embora a intensidade dos bombardeios tenha diminuído, centenas de civis palestinos continuam morrendo diariamente em ataques israelenses.
Para Jonathan Fowler, porta-voz da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo (UNRWA), o cessar-fogo não se traduz no cotidiano em Gaza. “A situação em Gaza permanece absolutamente catastrófica. A ajuda humanitária não é suficiente. Não está entrando na escala necessária. Ainda há muitas restrições quanto aos tipos de assistência permitidos”, afirmou Fowler à Jovem Pan.
Ao completar dois anos de conflito, o número de palestinos mortos na Faixa de Gaza ultrapassou 70 mil. Segundo o Ministério da Saúde palestino, controlado pelo Hamas, mais de 600 corpos foram recuperados dos escombros desde que o cessar-fogo entrou em vigor. A quantidade total de vítimas ainda deve aumentar drasticamente.
Do lado israelense, 1.665 foram mortos, sendo 1,2 mil apenas nas primeiras horas do ataque do Hamas a Israel. Outros 250 foram sequestrados no dia 7 de outubro de 2023.
O médico e presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal), Ahmed Shehada, diz que o objetivo de Israel segue sendo a limpeza étnica dos palestinos. “Gaza continua submetida a um processo sistemático e deliberado de destruição social, econômica e estrutural. Com o cessar-fogo, o sofrimento diminuiu, mas nunca acabou”, avaliou.
Ele defende que a população palestina também é vítima de um processo de desumanização. “Neste momento, não temos aqueles números elevados registrados ao longo dos dois anos de guerra. Fala-se muito em números de mortos. No entanto, cada vítima tinha nome, história, sonhos e família”, disse Shehada à reportagem.
‘Ataque à vida e à possibilidade de um futuro’
Mohammed Omer Almoghayer. Foto: Divulgação
Em entrevista à Jovem Pan, o premiado escritor palestino Mohammed Omer Almoghayer relata a dor da população palestina ao viver sob constante ameaça, em meio ao frágil cessar-fogo. “Minha vida foi moldada pelo deslocamento. A Palestina, para mim, é mais do que uma questão política; é uma condição vivida de fragmentação e resistência”, afirmou.
O escrito palestino observa que um cessar-fogo que representa apenas a “suspensão dos bombardeios”, sem desmontar as estruturas que tornaram a devastação possível, não é paz. “Trata-se do resultado de um cerco prolongado desde 2007, além da ocupação e do confinamento impostos desde 1967”, disse.
Para Almoghayer, a condição de Gaza não pode ser reduzida a uma “crise” humanitária, como se fosse um desastre natural. “Quando infraestrutura, casas, escolas, universidades, hospitais, mesquitas, igrejas e arquivos são destruídos, o que está sob ataque não é apenas à vida, mas a continuidade — à própria possibilidade de um futuro”, argumenta.
À beira do colapso
Ao menos 92% das casas na Faixa de Gaza foram destruídas ou danificadas ao longo da guerra, segundo a agência da ONU para refugiados palestinos. Inúmeras pessoas foram deslocadas diversas vezes, resultando também em escassez de abrigo.
Integrantes da Defesa Civil usam uma escavadeira para procurar os restos de vítimas nos escombros de um prédio destruído no campo de refugiados de Bureij, no centro da Faixa de Gaza. Foto: Eyad Baba/AFP
O professor José Niemeyer, do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) do Rio, ressalta que a infraestrutura de Gaza foi completamente destruída ao longo da guerra. “As Forças Armadas de Israel tiveram uma agenda não apenas de ataques com meios aéreos e mísseis, mas também de invasão e destruição com armamento militar pesado, principalmente tanques de guerra”, declarou.
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