‘Exu nas Escolas’: Projeto quer levar o candomblé para a sala de aula

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Movimento é acusado por parlamentares e famílias de promover doutrinação religiosa em escolas públicas

Imagine a seguinte situação: uma criança de 4 anos volta para casa com uma atividade escolar sobre orixás. Os pais, cristãos, não foram consultados, não assinaram autorização e sequer sabiam o que estava sendo ensinado à filha. O episódio, registrado em uma Escola Municipal de Educação Infantil no bairro do Caxingui, na zona oeste de São Paulo, não foi um caso isolado — e está no centro de uma polêmica crescente em torno do movimento “Exu nas Escolas”, iniciativa que propõe reorientar o currículo da educação pública brasileira a partir da cosmovisão das religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda.

O movimento ganhou visibilidade nacional a partir de um livro homônimo do babalorixá e professor universitário Linconly Jesus, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), e passou a ser adotado em cursos de formação de professores e em atividades nas redes públicas de ensino, especialmente durante a Semana da Consciência Negra, em novembro. Seus defensores sustentam que a proposta não constitui ensino religioso, mas uma pedagogia “decolonial e antirracista”.

Para uma parcela crescente de pais, parlamentares e lideranças religiosas cristãs, no entanto, o argumento cultural é apenas uma embalagem para o que classificam como doutrinação religiosa não consentida dentro das escolas públicas financiadas por toda a sociedade.

A reação política foi rápida. O deputado estadual do Espírito Santo Alcântaro Campos, do Partido Liberal, foi um dos primeiros a nomear publicamente o movimento e a questionar sua legalidade. Em vídeos publicados nas redes sociais, o parlamentar exibiu materiais utilizados em escolas capixabas e afirmou que alunos estavam sendo conduzidos a práticas religiosas sem que as famílias fossem consultadas. “O Estado deve ser laico e garantir liberdade, não impor crenças e agradar militância”, declarou o deputado, ao associar as atividades ao que chamou de doutrinação institucionalizada. A crítica central não é à cultura negra em si — que, como ele próprio pontuou, é protegida por lei —, mas ao fato de que símbolos, entidades e cosmovisões de religiões específicas estariam sendo introduzidos na rotina escolar sem transparência e sem o consentimento das famílias.
No coração da controvérsia está a tensão entre dois princípios constitucionais: o dever do Estado de promover o ensino da história e cultura afro-brasileira, garantido pela Lei 10.639/2003, e a laicidade que deve reger as instituições públicas de ensino.

Os críticos conservadores argumentam que o movimento “Exu nas Escolas” ultrapassa os limites legais ao transformar a obrigação cultural em veículo para a difusão de uma espiritualidade específica. Quando o próprio livro que origina o projeto afirma que “somente Exu tem a força para desestruturar o projeto da branquitude” e que as tecnologias dos terreiros devem guiar os caminhos pedagógicos, a linha entre educação étnico-racial e proselitismo religioso, na avaliação dos opositores, deixa de ser tênue para desaparecer por completo.

A preocupação se intensifica quando o movimento alcança crianças pequenas. Para pais evangélicos e católicos, a exposição de seus filhos a entidades como Exu — figura que, no imaginário cristão, carrega conotações diretamente ligadas ao demoníaco — representa uma violação não apenas da liberdade religiosa familiar, mas do direito fundamental de educar os filhos conforme os próprios valores. Esse argumento ecoa um debate global sobre os limites da escola pública: até onde pode ir o currículo sem invadir o território da consciência e da fé? No contexto brasileiro, em que mais de 88% da população se declara cristã, segundo dados do Censo, a questão tem peso eleitoral e moral considerável para o campo conservador.

O debate se insere ainda num cenário político mais amplo de resistência à chamada “doutrinação escolar”. Após o declínio formal do movimento Escola Sem Partido, parlamentares de direita criaram a Frente Parlamentar em Defesa da Educação Sem Doutrinação nas Escolas, encabeçada por nomes como Nikolas Ferreira e Gustavo Gayer, ambos do PL. Para esse campo, iniciativas como “Exu nas Escolas” representam exatamente o tipo de captura ideológica do sistema educacional público que buscam combater — desta vez com um componente adicional: a dimensão religiosa explícita, o que, na avaliação dos críticos, torna o caso juridicamente mais vulnerável e politicamente mais sensível do que as polêmicas anteriores em torno de gênero e ideologia.

O episódio da creche paulistana, a mobilização de deputados e a circulação crescente do projeto em redes de formação docente sugerem que o tema está longe de se encerrar. Para os defensores do movimento, trata-se de uma luta legítima pelo reconhecimento de epistemologias historicamente marginalizadas. Para seus críticos, é a prova de que parte do aparato educacional brasileiro avançou sobre um terreno que não lhe cabe: o da fé, da espiritualidade e das convicções mais íntimas das famílias brasileiras — e que fez isso, sobretudo, sem pedir licença.

 

 

 

 

 

Por: Pablo Carvalho

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