Início Polícia Do túmulo à fraude: “advogado do além” move 581 ações em um...

Do túmulo à fraude: “advogado do além” move 581 ações em um dia e lidera golpe milionário contra aposentados

0

Esquema investigado pela Polícia Civil do RS envolve uso de procurações falsas, vítimas em estado vegetativo e ajuizamento massivo de ações sem consentimento

ALT NOTÍCIAS

Um escândalo de proporções alarmantes e inéditas sacudiu o judiciário gaúcho nesta semana. Um advogado, hoje um dos maiores litigantes do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS), é acusado de liderar um esquema criminoso que envolve falsificação de documentos, apropriação indevida de valores judiciais e até a movimentação de processos em nome de pessoas mortas. Em apenas 24 horas, o investigado chegou a ajuizar 581 ações — uma prática que investigadores da Polícia Civil classificam como “advocacia predatória”.

Segundo o delegado Vinícius Nahan, da 2ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre, o prejuízo causado pela quadrilha pode ultrapassar os R$ 50 milhões. O principal alvo da investigação é um advogado que, conforme apontam os levantamentos, tem em seu histórico cerca de 100 mil ações movidas no TJRS.

Entre os absurdos encontrados nas apurações, há procurações assinadas por pessoas já falecidas — uma delas, dois meses após o óbito. Em outro caso, documentos foram supostamente firmados por uma mulher em estado vegetativo desde 2022.

Golpe sistemático com aparência legal

A organização criminosa, de acordo com a polícia, operava sob a fachada de legalidade. Atuando por meio da empresa Pro Consumer, o grupo cooptava clientes — geralmente idosos, aposentados e servidores públicos — sob o pretexto de ajuizar ações para revisar empréstimos consignados.

Com dados sigilosos em mãos, representantes da empresa contatavam as vítimas oferecendo “serviços jurídicos” para recuperar valores cobrados indevidamente por bancos. A promessa era de que, ao fim do processo, os clientes receberiam os valores corrigidos, mediante o pagamento de 30% de honorários advocatícios.

Mas o que ocorria, na prática, era um golpe em várias etapas: após a coleta de documentos e assinaturas, os criminosos usavam os dados para contratar novos empréstimos — sem o consentimento dos titulares — e ajuizavam ações judiciais sem que os clientes sequer soubessem. Quando os valores dos novos empréstimos eram creditados nas contas das vítimas, estas eram convencidas de que se tratava de indenizações judiciais, transferindo parte do valor para contas controladas pela quadrilha.

Ao perceberem descontos indevidos nos seus benefícios previdenciários, as vítimas, tardiamente, descobriam que haviam sido enganadas — e que estavam endividadas.

Três núcleos e um esquema milionário

A Operação Malis Doctor, deflagrada na última quinta-feira (07/05), revelou a estrutura sofisticada da quadrilha. O grupo era dividido em três frentes:

  • Núcleo jurídico: formado por advogados responsáveis por conduzir os processos fraudulentos;

  • Núcleo de captação: composto por empresas que abordavam as vítimas;

  • Núcleo financeiro: integrado por contadores e empresários, responsáveis por movimentar o dinheiro e ocultar o patrimônio.

Ao todo, 14 pessoas estão sendo investigadas, nove delas advogados. A Polícia Civil já abriu 15 inquéritos policiais — envolvendo indivíduos, decisões judiciais e instituições bancárias.

Os crimes atribuídos ao grupo incluem estelionato, falsidade ideológica, uso de documentos falsos, fraude processual, apropriação indébita, falsificação de documentos particulares e patrocínio infiel.

Impacto e impunidade

O caso reacende a discussão sobre a fragilidade dos mecanismos de controle no sistema judiciário e no setor bancário. A capacidade do grupo de movimentar centenas de ações por dia, com uso de documentos fraudulentos, expõe não apenas a sofisticação do esquema, mas também brechas institucionais que facilitam esse tipo de prática.

O TJRS ainda não se pronunciou oficialmente sobre os desdobramentos da operação. Enquanto isso, centenas de vítimas — muitas em condição de vulnerabilidade — seguem enfrentando o drama de cobranças indevidas, perda de crédito e prejuízos financeiros.

A Polícia Civil segue com as investigações, e não descarta novas prisões nos próximos dias. A expectativa é de que a operação se expanda para outros estados, já que há indícios de atuação nacional do grupo.

Da redação

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Digite seu nome aqui

Sair da versão mobile