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Até que as grades os separem

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No noite de 28 de dezembro de 1992, o ator Guilherme de Pádua e a mulher dele, Paula Thomaz, mataram a atriz Daniella Perez a tesouradas, num matagal na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Mesmo depois de presos em caráter preventivo, Guilherme e Paula continuaram cúmplices. Pouco antes do julgamento, porém, eles romperam as bodas de sangue. No tribunal, evitaram até se olhar. Cada um pegou 18 anos de prisão. Cumpriram só 6 e Paula chegou a ter um filho de Guilherme na cadeia, mas não quis ver o ex-marido quando ganhou a liberdade. Hoje, eles estão casados com outros e não têm mais nenhum tipo de vínculo.

Mais de 10 anos depois, em 31 de outubro de 2002, outro casal cometeu um crime premeditado: Suzane von Richthofen e o namorado, Daniel Cravinhos, mataram os pais dela, Manfred e Marísia, com golpes de barra de ferro. Durante as investigações, eles alegaram que os pais de Suzane não concordavam com o romance. Queriam convencer que mataram por amor. Mais tarde, ficou claro que o interesse estava na herança deixada pelo pai da menina. O pretexto romântico, alegado pelo casal, caiu por terra pouco antes do julgamento, quando eles também começaram a se desentender e terminaram o relacionamento.

No fim de junho deste ano, outro casal, supostamente homicida, se separou. Desta vez, Alexandre Nardoni e Anna Jatobá, acusados de matar a filha dele e enteada dela, Isabella, em março de 2008, romperam. Eles teriam estrangulado a menina de 5 anos e jogado o corpo pela janela. Presos há cerca de 1 ano e 3 meses, o casal Nardoni deve ser julgado no segundo semestre. Mas, assim como Guilherme e Paula, e Suzane e Daniel, podem aparecer rompidos no Tribunal do Júri para serem julgados por um crime que teriam cometido juntos.

Especialistas dizem que, com o passar do tempo, é comum os casais nessa situação passarem a divergir. O criminalista Wagner Moreira de Souza, da Universidade Estadual de Londrina (PR), avalia que, sem poder se encontrar e querendo salvar a própria pele, é quase inevitável que os casais cúmplices, que cumprem prisões preventivas, se separem. “Eles geralmente passam a se desentender quando vai chegando mais perto do julgamento. Além da ansiedade natural, do medo de passar mais tempo na cadeia, a separação física os distancia e a cumplicidade se perde no meio disso”, avalia. Souza acredita que, na solidão da prisão, eles passam a achar que o outro é responsável pelo fato de eles estarem naquela situação. “Quando a investigação avança e a verdade começa a surgir, eles notam que não adianta mais negar a autoria e se desesperam. Passam de cúmplices a inimigos. Acho
que é impossível manter a relação entre pessoas que já estão com a vida destruída dessa maneira. E mais difícil ainda é defender casais que discordam e trocam acusações”, pondera.

No caso de Anna e Alexandre Nardoni, as famílias negam que eles não estejam mais juntos, mas o risco de eles se desentenderem e serem julgados separados preocupa até o promotor do caso, Francisco Cembranelli, que afirma preferir submetê-los juntos ao Tribunal do Júri. Nesses casos, parece que nada se compartilha além da culpa. (J.V.)

FolUni

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