Início Agronegócio Degradação de pastagens no Brasil é também um problema social e demanda...

Degradação de pastagens no Brasil é também um problema social e demanda integração entre instrumentos de política agrícola

0
  • Análise da Agroicone focada nos estados de Mato Grosso e Pará mostra que a recuperação de pastagens no país exige estratégias diferentes para cada território;
  • Condições socioeconômicas precárias, baixo acesso ao crédito rural e à assistência técnica são desafios para o avanço da agenda;
  • Leitura territorial permite direcionar políticas e investimentos com mais precisão, aumentando as perspectivas da recuperação/conversão das pastagens.
  • Os imóveis rurais de pequeno porte ocupam um lugar estratégico no combate à degradação das pastagens, um dos principais desafios da agropecuária brasileira. A conclusão vem de uma análise feita pela Agroicone, que amplia o uso do IDR-CAR (Índice de Desenvolvimento Rural para o Cadastro Ambiental Rural), ferramenta de análise exclusiva da consultoria, para investigar, com mais precisão, o contexto social da degradação das pastagens no país.

     

    Embora representem áreas menores, esses imóveis concentram uma fração relevante do problema e demandam maior atenção das políticas públicas, dados os maiores riscos ambientais, econômicos e sociais envolvidos. O IDR-CAR, originalmente criado para mensurar o desenvolvimento socioeconômico a partir de dados detalhados dos imóveis rurais, passa agora a ser aplicado como ferramenta de leitura territorial para qualificar esse diagnóstico, explicam Leila Harfuch, Lauro Vicari e Gustavo Lobo, pesquisadores da Agroicone responsáveis pelo trabalho.

     

    Na prática, o IDR-CAR passa a integrar diferentes camadas de informação, combinando dados ambientais e socioeconômicos para mapear o território de forma mais completa. O resultado é um diagnóstico mais preciso. A degradação das pastagens é um desafio que, além de técnico, está diretamente associado às condições de vida das famílias que vivem nesses imóveis. Estes foram os achados dos estudos, que analisaram a degradação das pastagens, o contexto socioeconômico e o acesso à política agrícola por pequenos imóveis nos estados de Mato Grosso e Pará.

     

    “Quando a análise inclui apenas o solo, ela mostra o tamanho do problema. Quando incorpora as condições de renda, educação e infraestrutura, começa a revelar possíveis causas. Isso muda a forma de olhar para a degradação”, afirma Leila.

     

    No Mato Grosso, a área de pasto degradado totalizou 10,1 milhões de ha nos 152,7 mil CARs (2022). Considerando 103,3 mil imóveis com até 4 módulos fiscais (MF) e no mínimo um hectare de pastagens (grupo de imóveis focalizados no estudo), a área de degradação chega a 2,6 milhões de ha, isto é, 25,3% do total. Já no Pará, a área total de pasto degradado totalizou 6,6 milhões de ha nos 276,7 mil CARs (2022). Nos 203,8 mil imóveis com até 4 MF e no mínimo um hectare de pastagens (grupo de imóveis focalizados), a área de degradação chega a 2,7 milhões de ha, ou seja, 40,7% do total.

     

    Nesse contexto, o panorama de acesso dos produtores familiares de Mato Grosso às políticas públicas-chave para a transição sustentável é preocupante, bem como o alcance das práticas de recuperação e conversão de pastagens neste público: apenas 15,9% declararam acesso a crédito e 12,5% responderam ter recebido orientação técnica (Censo Agropecuário/IBGE, 2017). Ainda, apenas 11,2% declararam o uso de práticas de recuperação de pastagens, como calcário e outros corretivos de solo. Em uma análise apenas dos imóveis focalizados, 28,2 mil (27,3%) imóveis contrataram crédito pelo menos uma vez. O ponto máximo de contratação foi a safra 2022/2023, com 12 mil CARs, o que responde por apenas 11,6% do total, seguido de um movimento de baixa nas safras seguintes.

     

    No Pará, apenas 6,1% declararam acesso a crédito rural e 4,7% responderam ter recebido orientação técnica (Censo Agropecuário/IBGE, 2017). Ainda, apenas 4% declararam o uso de práticas de recuperação de pastagens, como calcário e outros corretivos de solo. Em uma análise apenas dos imóveis focalizados, 30,7 mil (15,1%) imóveis contrataram crédito pelo menos uma vez. O ponto máximo de contratação foi a safra 2021/2022, com 11 mil CARs, o que responde por apenas 5,4% do total, seguido de um movimento de baixa nas safras seguintes.

     

    Segundo a análise, este é um problema multifacetado, com efeitos econômicos, sociais e ambientais. Pastagens degradadas reduzem a produtividade e a renda dos produtores, ampliam a vulnerabilidade dos produtores e podem pressionar a abertura de novas áreas, criando um ciclo que impacta tanto a renda quanto a sustentabilidade da atividade agropecuária.

     

    “A degradação não pode ser explicada só por manejo inadequado. Como causas mais profundas existem limitações estruturais, como as condições socioeconômicas nas quais o produtor está inserido, que influenciam a sua capacidade de adotar boas práticas agropecuárias”, destaca Vicari.

     

    Acesso ao crédito é fundamental

    Um dos fatores mais relevantes nesse contexto é o acesso ao crédito. Apesar de ser um instrumento central para viabilizar a recuperação de áreas degradadas, ele ainda não alcança uma parcela significativa dos pequenos produtores. Esse cenário ajuda a explicar por que soluções já conhecidas nem sempre chegam a quem mais precisa e nem sempre representam uma solução isolada para os problemas. Existe tecnologia disponível para recuperar pastagens, mas a adoção dessas práticas depende de condições que vão além, passando pela integração de políticas públicas que enfrentem as vulnerabilidades sociais dos produtores e proporcionem conhecimento técnico e financiamento.

     

    Para Lobo, “existe um conjunto de soluções já consolidadas para a recuperação de pastagens. O desafio é que elas não chegam de forma igual a todos os produtores, porque as condições de partida são muito diferentes.”

     

    Estratégias conectadas

    Identificar essas diferenças dentro do território, torna a visão holística uma necessidade estratégica para orientar ações mais direcionadas e eficientes, tanto no setor público quanto no privado. A leitura mais detalhada dos dados possibilita priorizar áreas, adaptar políticas e ampliar o alcance de iniciativas voltadas à recuperação produtiva e ambiental.

     

    Essa abordagem dialoga diretamente com as metas ambientais brasileiras, especialmente as previstas no Plano ABC+, que reconhecem a recuperação de pastagens como uma das principais estratégias para redução de emissões e aumento da eficiência produtiva. Também se conecta ao programa Caminho Verde Brasil, que busca estruturar financiamento e priorização de áreas para acelerar a conversão de áreas degradadas em sistemas produtivos sustentáveis.

     

    Com o avanço na integração entre dados ambientais e sociais, abre-se espaço para a transformação de diagnósticos amplos em estratégias mais concretas, ajustadas às diferentes realidades do campo. “Não é somente mapear onde está a degradação, mas entender por que ela acontece e, principalmente, o que precisa ser considerado para superá-la de forma inclusiva e sustentável”, conclui Leila.

     

    Para mais informações, acesse os estudos completos clicando nos links a seguir: Pará e Mato Grosso.

     

    Sobre a Agroicone

    A Agroicone é uma organização que gera conhecimento e soluções para transformar a agropecuária brasileira diante dos desafios globais do desenvolvimento sustentável. Atua em cinco áreas estratégicas: i) comércio internacional e temas globais; ii) sustentabilidade e inteligência territorial; iii) políticas públicas; iv) negócios, mercados e financiamento; e v) tecnologias em cadeias agro. A Agroicone é formada por uma equipe multidisciplinar, com vasta competência nas áreas econômica, regulatória/jurídica, territorial, socioambiental e de comunicação. Mais informações: www.agroicone.com.br.

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Digite seu nome aqui

Sair da versão mobile