Estudo com mais de 10 mil óvulos mostra que mulheres que fumam têm queda expressiva no sucesso do tratamento de fertilização in vitro; pesquisadores também verificaram benefícios do estilo de vida saudável em todas as etapas do processo
No Dia Nacional de Combate ao Fumo, lembrado em 29 de agosto, costuma-se destacar que o tabagismo aumenta o risco de doenças cardiovasculares, problemas respiratórios e diversos tipos de câncer. No entanto, há outra consequência grave do ato de fumar que não deve passar despercebida, principalmente por quem planeja ter filhos: os severos prejuízos do cigarro à saúde reprodutiva.
Um estudo brasileiro, apresentado no maior congresso de medicina reprodutiva do mundo – o 42º Encontro Anual da ESHRE (European Society of Human Reproduction and Embryology) –, comprovou que, quanto mais intenso o tabagismo, pior é a qualidade do óvulo e menores as chances de ele ser fertilizado. Pesquisadores do Fertgroup, maior rede de reprodução assistida do país, chegaram a essa conclusão após analisar 10.109 óvulos provenientes de 1.559 mulheres submetidas à fertilização in vitro (FIV). Com o auxílio da Inteligência Artificial (IA), a equipe processou as imagens microscópicas dessas células reprodutivas femininas e cruzou os resultados com o estilo de vida das pacientes e as taxas de sucesso do procedimento.
O software de IA atribuiu uma pontuação entre 0 e 10 para cada óvulo, de acordo com sua qualidade morfológica – ou seja, formato e estrutura física – e seu potencial reprodutivo: a probabilidade de fertilização e de desenvolvimento do embrião em laboratório até estar pronto para implantação no útero. Os óvulos de não fumantes obtiveram nota média de 6,46. Entre as pacientes que fumavam mais de 10 cigarros por dia, a nota despencou para 5,25. Essas mulheres também apresentaram menor taxa de fertilização (87,4%) em relação às não fumantes (93,4%). “Se essa taxa cai, o casal passa a ter menos embriões disponíveis no laboratório, o que reduz as chances finais de chegar à gravidez”, explica o Dr. Edson Borges, diretor científico do Fertgroup e um dos autores do estudo.
Além do cigarro: o impacto combinado do estilo de vida
Os cientistas também investigaram a relação da saúde reprodutiva com outros hábitos modificáveis: consumo de álcool, atividade física, sono, bem como o nível de ansiedade. A ingestão diária de bebidas alcoólicas impactou diretamente os resultados: a nota de qualidade do óvulo caiu 11,8% e a taxa de fertilização apresentou redução de 9,7% em comparação com mulheres que não bebiam. Já a ansiedade crônica influenciou a taxa de formação de embriões de alta qualidade, que caiu de 46,7% nas pacientes mais calmas para 37,8% no grupo com ansiedade frequente.
Por outro lado, praticar exercícios de 3 a 6 vezes por semana aumentou a taxa de fertilização, enquanto pacientes que relataram sempre dormir bem apresentaram melhores óvulos e maior taxa de formação de embriões saudáveis.
A pesquisa inovou, ainda, ao avaliar o impacto somado do estilo de vida na saúde reprodutiva, confirmando que a combinação de hábitos saudáveis cria um ambiente favorável ao sucesso da FIV. “Identificamos um subgrupo de pacientes caracterizado por um estilo de vida protetor: baixo ou nulo consumo de álcool, não fumantes, boa qualidade de sono e ansiedade ausente ou eventual. Esse perfil demonstrou chances substancialmente superiores em todas as etapas do processo”, conta Borges. Entre tais mulheres, as chances de obter óvulos de alta qualidade aumentaram em 32%. Também houve elevação em 31% na taxa de fertilização e em 25% na taxa de blastulação (quando o embrião consegue chegar ao estágio chamado de blastocisto, momento em que pode ser transferido para o útero).
O estudo conclui que intervenções no estilo de vida podem melhorar a qualidade dos óvulos por vias metabólicas, endócrinas e pelo combate ao estresse oxidativo celular. “Ajustes no estilo de vida são ferramentas reais que ajudam a otimizar os resultados da reprodução assistida. A avaliação dos óvulos pela Inteligência Artificial em conjunto com o conhecimento dos hábitos da paciente permite que os médicos desenhem estratégias altamente personalizadas, com a realização de aconselhamento pré-concepcional embasado em evidências”, observa Borges.






