
Condição está relacionada à perda de peso acelerada, que reduz estruturas responsáveis pelo funcionamento adequado da tuba auditiva e provoca desconforto e alterações na percepção dos sons
Em busca do emagrecimento rápido, muitas pessoas têm recorrido às chamadas canetas emagrecedoras. Embora os benefícios desses medicamentos sejam conhecidos quando utilizados com indicação médica, poucos sabem que a perda acelerada de peso também pode favorecer o surgimento de um problema no ouvido chamado tuba patente. A condição ocorre quando a tuba auditiva, estrutura responsável por conectar a orelha média à parte nasal da faringe, permanece aberta por tempo prolongado, provocando sintomas que interferem diretamente na qualidade de vida.
Segundo a Dra. Kátia Virginia, otorrinolaringologista do Hospital de Olhos de Pernambuco (HOPE), a tuba auditiva normalmente permanece fechada durante quase todo o tempo, abrindo apenas em situações específicas. “A tuba auditiva é um canal que liga a orelha média à parte nasal da faringe. Ela permanece fechada na maior parte do tempo e só se abre durante a deglutição, o bocejo e a mastigação. Quando esse mecanismo falha e ela permanece aberta de forma anormal, ocorre a chamada tuba patente”, explica.
A especialista destaca que os sintomas costumam ser bastante incômodos e, muitas vezes, confundem o paciente. “A principal manifestação é a autofonia, quando a pessoa passa a ouvir a própria voz de forma muito intensa. Também é comum perceber a própria respiração, sons da mastigação, da deglutição, além da sensação de ouvido tampado, pressão ou plenitude na orelha. Esses sintomas podem ser contínuos ou variar ao longo do dia e acabam provocando bastante desconforto e até ansiedade.”
Entre os fatores que favorecem o aparecimento da condição, a perda rápida de peso é considerada a principal causa. Isso acontece porque a redução do tecido de gordura localizado ao redor da tuba auditiva diminui o suporte necessário para que ela permaneça fechada em repouso.
“Existe um coxim adiposo (tecido de gordura) chamado coxim de Ostmann, que ajuda a manter a tuba fechada. Quando ocorre um emagrecimento muito rápido, esse tecido diminui, reduzindo o suporte da cartilagem da tuba e favorecendo que ela permaneça aberta por mais tempo”, afirma a médica.
É justamente por esse mecanismo que o uso das canetas emagrecedoras pode estar relacionado ao problema. Segundo a otorrinolaringologista, a medicação não age diretamente sobre a tuba auditiva.
“As canetas emagrecedoras, como os agonistas do receptor de GLP-1, promovem uma perda de peso significativa em pouco tempo. O medicamento não causa diretamente a tuba patente, mas o emagrecimento acelerado provocado por ele pode favorecer esse quadro por reduzir o tecido de gordura responsável por ajudar no fechamento da tuba”, esclarece.
Além da perda de peso, outros fatores também podem contribuir para o desenvolvimento da doença. “Gravidez, desidratação, alterações neuromusculares, radioterapia na região da cabeça e pescoço, alterações anatômicas, algumas doenças sistêmicas e o uso prolongado de diuréticos e descongestionantes nasais também podem estar associados ao surgimento da tuba patente. Em alguns casos, inclusive, não conseguimos identificar uma causa específica”, ressalta.
Por apresentar sintomas semelhantes aos de outras doenças do ouvido, o diagnóstico exige avaliação especializada. “A tuba patente pode ser confundida com problemas que realmente provocam perda auditiva, como obstrução da tuba auditiva, doença de Menière, otosclerose, perda auditiva súbita, otites médias e até alterações da articulação temporomandibular. A diferença é que, na maioria das vezes, a audiometria do paciente com tuba patente permanece normal”, explica.
A confirmação do diagnóstico é feita principalmente pela história clínica e pelo exame físico. “O relato de autofonia, da percepção da própria respiração e dos sintomas que melhoram quando o paciente se deita são pistas importantes. Durante o exame, podemos observar a movimentação da membrana timpânica sincronizada com a respiração. Também utilizamos exames como audiometria, impedanciometria e nasofibroscopia para complementar a avaliação e descartar outras doenças”, detalha.
O tratamento depende da intensidade dos sintomas e da causa identificada. Em muitos casos, medidas conservadoras já proporcionam melhora significativa.
“Quando a perda de peso é o fator desencadeante, muitas vezes aguardamos a estabilização do peso ou, quando clinicamente possível, parte da recuperação ponderal. Também orientamos boa hidratação e o uso de soluções fisiológicas nasais para melhorar as condições dos tecidos da região. Nos casos mais graves e resistentes ao tratamento clínico, existem procedimentos endoscópicos minimamente invasivos e outras alternativas que podem ser consideradas pelo especialista”, conclui a Dra. Kátia Virginia.





